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07/07/12 - Moradores denunciam tomada de região de chácaras por transportadoras

Decreto que passou por cima do Plano Diretor de Goiânia agravou problemas ambientais de local que deveria ser preservado, mas já afetado pela ação do complexo Cargill/Unilever

Fonte: Jornal Opção

 Reportagem: Elder Dias

 

É fim de tarde. Há uma revoada de curicacas em um pequeno bando, com seus ruídos característicos, seguidos pelo cacarejo de uma galinha misturado a sons variados de pássaros — bem-te-vis, periquitos, rolinhas etc. Cavalos pastam em meio a uma vegetação típica do Cerrado. A poucas centenas de metros dali, uma bela mina d’água. Há no ar aquele indefectível cheiro de curral e uma camada de poeira. O conjunto da obra é uma típica sensação de paz e tranquilidade. Eis que passa, então, como que fazendo um contraponto, um comboio completando a paisagem.

Parece ser uma típica cena da zona rural moderna, em que o progresso impõe suas carretas desfilando por rodovias em meio à bucólica alma de interior. Parece, mas não é. Quem seguir aqueles caminhões vai invariavelmente parar nas imediações do maior complexo industrial de Goiânia, a Cargill-Unilever, instalado inicialmente como fábrica da Arisco na década de 1980, em meio a um antigo conjunto de chácaras perto do Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás, região norte da capital. De uma modesta rua de terra é possível fotografar uma gleba de cerradinho com uma poderosa chaminé da fábrica ao fundo. A mesma modesta rua de terra serve, também, para o deslocamento de caminhões rumo a uma transportadora.

O acidente na Cargill, em que de um tanque vazaram milhares de litros de ácido sulfúrico, no dia 19 de junho, chamou a atenção para a região, localizada praticamente na planície de inundação do Rio Meia Ponte, que fica a 500 metros da indústria. Moradores ficaram revoltados com o vazamento, que só reacendeu um conflito que se arrasta há anos: a presença intrusa de uma estrutura que vai aos poucos avançando em uma área totalmente inadequada, oprimindo os antigos habitantes da localidade. Tudo isso ao largo de uma fiscalização mais rigorosa do poder público.

A prova de que os órgãos competentes poderiam ser pelo menos mais eficientes é que o decreto elaborado por um deles — o Con­selho Municipal de Políticas Ur­banas (Compur) da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo (Seplam) — se sobrepôs a uma lei, o Plano Diretor de Goiânia, e facilitou a mudança drástica na paisagem local nos últimos dois anos. O documento, de fevereiro de 2010, transformou a rotina da modesta Rua 1, nas Chácaras Retiro, que, de via local de pista única, se tornou via especial, com o que se pôde elevar o grau de incomodidade de mínimo (GI-1) para máximo (GI-5). O motivo alegado para a mudança foi sua proximidade com a Perimetral Norte, uma via de tráfego intenso. O resultado é a movimentação incessante de veículos pesados em uma rua concebida para o trânsito local de carros pequenos. E poucos destes.

Nesses quase dois anos e meio de vigência, o decreto de nº 198/2010 fez inflar o número de transportadoras e empresas de logística na região. A mais beneficiada foi a maior delas: a Quick Operadora Logística, instalada justamente na outrora pacata Rua 1. De acordo com denúncia da As­sociação Ecológica Vale do Meia Ponte (Verdivale), entidade que reúne moradores de vários bairros da região norte da capital, nos últimos anos a transportadora ampliou sua área inicial de 15 mil metros quadrados para 60 mil metros quadrados, mesmo sem ter autorização nem sequer para a ocupação inicial: o uso do solo concedido pela Seplam em maio de 2008 não permitia a instalação da transportadora para movimento de cargas.

“O que o documento da Seplam mostra é que ali só poderia haver um escritório, por exemplo para agenciamento de cargas”, relata Joaquim Tavares, diretor ambiental da Verdivale. Procurada por telefone, uma atendente da Quick disse que o gerente administrativo, João Edval da Silva, era quem poderia falar pela empresa, mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno da ligação.

A situação da região motivou denúncia formalizada pela Verdivale e encaminhada ao Ministério Público Estadual (MP-GO). A promotora Alice de Almeida Freire propôs ação civil pública e, no dia 16 de março, o juiz Fabiano de Aragão Fernandes, da 1ª Vara da Fazenda Pública, concedeu liminar declarando inconstitucional o decreto 198/2010 e requerendo à Pre­feitura a apresentação da documentação e da situação jurídica de todas as empresas situadas na área.

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Moradores denunciam tomada de região de chácaras por transportadoras

Decreto que passou por cima do Plano Diretor de Goiânia agravou problemas ambientais de local que deveria ser preservado, mas já afetado pela ação do complexo Cargill/Unilever

Por Jornal Opção

 Reportagem: Elder Dias

 

É fim de tarde. Há uma revoada de curicacas em um pequeno bando, com seus ruídos característicos, seguidos pelo cacarejo de uma galinha misturado a sons variados de pássaros — bem-te-vis, periquitos, rolinhas etc. Cavalos pastam em meio a uma vegetação típica do Cerrado. A poucas centenas de metros dali, uma bela mina d’água. Há no ar aquele indefectível cheiro de curral e uma camada de poeira. O conjunto da obra é uma típica sensação de paz e tranquilidade. Eis que passa, então, como que fazendo um contraponto, um comboio completando a paisagem.

Parece ser uma típica cena da zona rural moderna, em que o progresso impõe suas carretas desfilando por rodovias em meio à bucólica alma de interior. Parece, mas não é. Quem seguir aqueles caminhões vai invariavelmente parar nas imediações do maior complexo industrial de Goiânia, a Cargill-Unilever, instalado inicialmente como fábrica da Arisco na década de 1980, em meio a um antigo conjunto de chácaras perto do Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás, região norte da capital. De uma modesta rua de terra é possível fotografar uma gleba de cerradinho com uma poderosa chaminé da fábrica ao fundo. A mesma modesta rua de terra serve, também, para o deslocamento de caminhões rumo a uma transportadora.

O acidente na Cargill, em que de um tanque vazaram milhares de litros de ácido sulfúrico, no dia 19 de junho, chamou a atenção para a região, localizada praticamente na planície de inundação do Rio Meia Ponte, que fica a 500 metros da indústria. Moradores ficaram revoltados com o vazamento, que só reacendeu um conflito que se arrasta há anos: a presença intrusa de uma estrutura que vai aos poucos avançando em uma área totalmente inadequada, oprimindo os antigos habitantes da localidade. Tudo isso ao largo de uma fiscalização mais rigorosa do poder público.

A prova de que os órgãos competentes poderiam ser pelo menos mais eficientes é que o decreto elaborado por um deles — o Con­selho Municipal de Políticas Ur­banas (Compur) da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo (Seplam) — se sobrepôs a uma lei, o Plano Diretor de Goiânia, e facilitou a mudança drástica na paisagem local nos últimos dois anos. O documento, de fevereiro de 2010, transformou a rotina da modesta Rua 1, nas Chácaras Retiro, que, de via local de pista única, se tornou via especial, com o que se pôde elevar o grau de incomodidade de mínimo (GI-1) para máximo (GI-5). O motivo alegado para a mudança foi sua proximidade com a Perimetral Norte, uma via de tráfego intenso. O resultado é a movimentação incessante de veículos pesados em uma rua concebida para o trânsito local de carros pequenos. E poucos destes.

Nesses quase dois anos e meio de vigência, o decreto de nº 198/2010 fez inflar o número de transportadoras e empresas de logística na região. A mais beneficiada foi a maior delas: a Quick Operadora Logística, instalada justamente na outrora pacata Rua 1. De acordo com denúncia da As­sociação Ecológica Vale do Meia Ponte (Verdivale), entidade que reúne moradores de vários bairros da região norte da capital, nos últimos anos a transportadora ampliou sua área inicial de 15 mil metros quadrados para 60 mil metros quadrados, mesmo sem ter autorização nem sequer para a ocupação inicial: o uso do solo concedido pela Seplam em maio de 2008 não permitia a instalação da transportadora para movimento de cargas.

“O que o documento da Seplam mostra é que ali só poderia haver um escritório, por exemplo para agenciamento de cargas”, relata Joaquim Tavares, diretor ambiental da Verdivale. Procurada por telefone, uma atendente da Quick disse que o gerente administrativo, João Edval da Silva, era quem poderia falar pela empresa, mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno da ligação.

A situação da região motivou denúncia formalizada pela Verdivale e encaminhada ao Ministério Público Estadual (MP-GO). A promotora Alice de Almeida Freire propôs ação civil pública e, no dia 16 de março, o juiz Fabiano de Aragão Fernandes, da 1ª Vara da Fazenda Pública, concedeu liminar declarando inconstitucional o decreto 198/2010 e requerendo à Pre­feitura a apresentação da documentação e da situação jurídica de todas as empresas situadas na área.

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