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RIO MEIA PONTE - GOIANIRA-GOIÂNIA-ALOÂNDIA 2005

Escrito por: Paulo Castilho
Em: 17/04/06

SEGUNDA PARTE

 


Hugo Leonardo Albuquerque, o parceiro que enfrentou a aventura a partir
de Goiânia

Após descansar na segunda-feira, prosseguimos viagem na terça, 18 de abril. Ano passado nosso ponto de partida foi a chácara do amigo Gioveroni. Neste ano decidimos sair um pouco abaixo, na ponte de concreto que liga o Vale das Pombas (Goiânia) ao município de Bela Vista.

O momento da nossa partida. Mais uma vez, o nosso amigo Janderson foi peça fundamental em nossa aventura.

Como a quantidade de chuva desse ano foi maior que a do ano passado, a quantidade de água está maior e a margem está mais baixa, o que facilitou nossa saída deste ponto. Saímos do local às 11:30 horas.


Assim que saímos, poucas curvas abaixo, deparamos com uma
margem (direita) com sinais de extração de areia.

Por ser a primeira vez que o Hugo pega em um remo, pensei que a viagem deste ano duraria mais que os três dias que gastamos no ano passado. Em um balanço geral, cheguei à conclusão de que gastamos apenas três horas a mais que a viagem anterior.

Notei que aumentaram os pontos de retirada de areia. Ainda dentro do município de Goiânia, deparamos com dois homens que faziam a retirada manualmente. Nós os cumprimentamos e sem que fizéssemos qualquer pergunta, eles alegaram que estavam fazendo aquilo por não terem outra fonte de renda. O trabalho destes homens, em termos de danos ao meio ambiente, é nulo quando comparados aos trabalhos das dragas.


Segundo ponto de retirada de areia, no município de Aparecida de Goiânia.

Margem habitada. Sempre há problemas de desmatamento nesses locais. Além de desmatar totalmente a margem, os proprietários ainda tem a coragem de passar suas cercas rente às margens. Mesmo com o desbarrancamento e assoreamento visível, não há a menor preocupação de um reflorestamento no espaço exigido por lei. Alegar falta de informação já não é uma boa desculpa.


Nossa primeira parada para um lanche. Chamou-me a atenção este
caudaloso riacho que desagua no rio pela margem direita.
Há sinais de que ali seja um ponto de pesca.


Nosso primeiro acampamento. Paramos por volta das 17:30 Hrs.


O plano era acampar no mesmo local utilizado por nós no ano passado, ou seja, na ponte que liga os municípios de Hidrolândia ao de Bela Vista de Goiás.

Estava ficando tarde e decidimos que seria melhor parar nesse banco de areia à margem esquerda do rio. No local havia muitas pegadas e fezes de capivaras. Muito aconchegante e seguro este local. Atrás de nós um alto barranco dificultava a entrada de qualquer pessoa. Não encontramos madeira para a fogueira.




Como era a primeira experiência de viagem por rios do Hugo, ele estava muito amedrontado com a possibilidade de encontramos algum animal “selvagem”. Temia que fôssemos atacados por onças ou até mesmo por alguma sucuri. Resolvi tirar proveito e fazer algumas brincadeiras. Em nossa primeira parada para pouso, deparamos com um monte de fezes de capivaras, juntamente com algumas pegadas. Já que ele não conhecia nada daquilo, eu disse que era fezes e pegadas de onça... e das GRANDES! Ele se assustou logo de cara e não queria nem mesmo descer da canoa. Amarrar a canoa em uma árvore próxima ao barranco foi motivo de discussão, pegar lenha para uma fogueira... sem chance. O Hugo não saia de perto de mim e disse que iria montar a sua barraca colada na minha (veja foto acima).

De nada adiantou eu querer desfazer a brincadeira, ele não acreditava que a chance de uma onça aparecer por ali era quase nula e muito menos de que o homem não faz parte da cadeia alimentar desse felino (a não ser em casos extremos de fome, proteção de filhotes ou acuação). Se as presas silvestres se tornam muito raras, as novilhas, as ovelhas e as aves domésticas podem se tornar atraentes. Na maioria das vezes, o predador só está de passagem, em busca de comida. Basta fazer barulho, bater palmas, gritar e abrir passagem que ela vai embora.

Devido ao avanço da agropecuária, ao crescimento urbano ou grandes obras, como rodovias e hidrelétricas, a supressão de florestas nativas deixa as onças demasiadamente vulneráveis. Como predadores, animais de topo de cadeia alimentar, elas precisam de grandes áreas para caçar, viver e procriar. Um indivíduo macho adulto chega a ocupar entre 22 e 150 quilômetros quadrados dependendo da região e da disponibilidade de alimentos. Quanto menos presas disponíveis, mais as onças têm de caminhar. Ao sair em busca de alimento, elas topam com as fronteiras estabelecidas pelo homem. E, inadvertidamente, ‘avançam os sinais vermelhos’.

De acordo com pesquisas feitas pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa), entre 1993 e 2003, houve 155 ocorrências de onças junto a fazendas e áreas urbanas, só na região Sudeste. Outros 115 casos foram registrados no Sul, no mesmo período. No Centro-Oeste foram 28, no Nordeste 22 e no Pantanal, 20. Longe de refletir a realidade devido à subnotificação, os números servem apenas como parâmetro da disputa pelo espaço.


Carcaça de uma vaca boiando rio abaixo, logo acima da ponte que
liga a BR-153 ao município de Piracanjuba. O mal cheiro foi notado
por nós alguns metros antes de chegar até ela.


Por volta das 16:30hr começamos a notar que o céu atrás de nós estava escurecendo. Grandes nuvens de chuva se agrupavam e fortes trovões começaram a ser ouvidos. O ideal seria procurar um lugar seguro para acampar, mas ainda era cedo e isto poderia atrasar completamente nossa viagem. Resolvemos arriscar e prosseguir viagem.

Chegamos à ponte de Piracanjuba justamente na hora em que a chuva nos alcançou. Pensei em acampar por ali, mas mudei de idéia quando pensei na segurança do local.

A experiência do ano passado de que dali para baixo os pontos para acampamento são raros, batiam sempre na minha cabeça. Mesmo assim, resolvi prosseguir viagem e diminuir a diferença de horas.


Aqui estamos exatamente debaixo da ponte nova de Piracanjuba,
olhando
para a antiga ponte que ruiu. Nos escondemos da chuva e aproveitei
para dar uma breve cochilada dentro da canoa.

Logo abaixo desta ponte, passamos pela ilhota onde existe uma pequena casinha sobre palafitas.

A vegetação que margeia o rio a partir deste ponto muda completamente. Ciente de que teríamos dificuldades para acampar, resolvi entrar em um pequeno riacho que desembocava na margem direita do rio. Após percorrer uns dez metros por ele, achamos um ponto ideal para acampar. A margem alta e coberta por uma baixa vegetação foi o ideal.

Nossa segunda noite. Após uma tarde sob constante ameaça de chuva, acampamos em um braço de um riacho à margem direita do rio Meia Ponte. O local era seguro, pois estava a mais ou menos um metro da linha d’água.


Aqui neste acampamento, tive novamente a demonstração de outra fobia do Hugo: o medo de ser atacado por uma sucuri. Como tivemos que entrar em um pequeno tributário do rio, de pouca profundidade e cheio de raízes nas margens, ele ficou bastante assustado. Eu disse a ele que a sucuri “arfava” (fazendo um som parecido com um ronco) antes de atacar suas presas. Durante a noite, devido aos meus roncos, o Hugo ficou algumas horas sem dormir sem saber se quem roncava era eu ou a cobra!!!

A sucuri é um réptil ofídio da família dos boídeos. Para identificá-la, basta observar certas características: cor pardo-azeitonada, com uma dupla série de grandes manchas pretas e cabeça revestida de numerosas escamas pequenas. Elas habitam praticamente quase todo o território brasileiro, vivendo sempre à beira de rios e riachos. A Sucuri é a rainha da selva amazônica. No passado, a existência desta extraordinária serpente perdia-se nas brumas da lenda. Os exploradores que a haviam encontrado falavam de um aterrorizante monstro (o coronel Fawcett encontrou uma de 15 metros e Henry Walter Bates ouviu falar de espécies do mesmo tamanho); os índios, por seu turno, acreditam numa serpente mitológica com dezenas de metros de comprimento, chamada Mãe D’Água.

Passando da lenda à realidade, a sucuri continua sendo a maior serpente conhecida: ainda que o espécime conservado num museu de Londres tenha menos de nove metros, há notícias de espécies que, garantidamente atingem os doze metros (enquanto a rival direta da sucuri, a píton malaia ou de Bornéu, não supera os dez).

É possível que no passado tenham existido os espécimes gigantescos de que falam Fawcett e Bates nos seus livros de exploração? Talvez.

Infelizmente, a rainha da floresta corre o risco de extinção, submetida como é a um impiedoso massacre por parte de caçadores índios e colonos brancos.

A sucuri tem um processo digestivo muito difícil e trabalhoso, durante o qual se torna presa fácil dos caçadores. Sua única defesa, nesses casos, se mostra contraproducente: emana um desagradável e intenso odor que ajuda os caçadores a localizar seu esconderijo.

Por outro lado, a sucuri não conhece rival entre os outros animais na captura de suas presas. É quase sempre coroada de sucesso em suas lutas com o jacaré.

Como ele sempre deixava a canoa ir em direção às galhadas nas margens do rio, eu disse a ele que naqueles locais é que as cobras costumavam ficar, enroladas nas árvores. Foi o suficiente para que a canoa sempre navegasse no meio do leito!!! De vez em quando ouvíamos o som de um pica-pau martelando alguma árvore com seu bico. Ao ser perguntado sobre a origem daquele som, eu disse ao Hugo que se tratava de cobras alertando sobre sua presença (a canoa quase voava de tantas remadas!).

A principal ferramenta do pica-pau para sobreviver é o bico extremamente resistente, que é usado para picar a madeira do tronco das árvores à procura de insetos. Dotados de músculos fortes no pescoço, os pica-paus tem até uma proteção no cérebro, para suportarem a trepidação. Sem isso não agüentariam bater com o bico na madeira mais de 100 vezes por minuto, sem ficarem zonzos. Os ossos entre o bico e o crânio não são contínuos e sim ligados por um tecido esponjoso capaz de absorver os impactos e, assim, evitar danos cerebrais.

O maior risco que se corre ao fazer uma aventura como a nossa, é acabar esbarrando em uma cobra. Contei ao Hugo que na sede da Geo Ambiente existe a fotografia de uma cobra, que morreu ao tentar engolir uma presa de grande porte. Começamos a falar do tema.

Quando as pessoas se servem de refeições além de sua capacidade de comer, ou quando engasgam com um bocado maior, dizemos que têm “olhos maiores que a barriga”. Isto também pode acontecer com os animais, incluindo as cobras.

As cobras não tem dentes adequados parra mastigar ou cortar sua refeição em bocados. Portanto, tem que engolir inteira sua presa. Apesar da capacidade de engolir bocados grandes – pois sua pele é elástica e as costelas não estão unidas entre si – há um limite de volume. Se o limite é ultrapassado, está criada a situação de “olhos maiores que a barriga”.

Mortes de cobras por sufocação foram relatadas por biólogos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil (a foto da Geo Ambiente é um bom exemplo).

Ao se deparar com uma cobra no meio do mato, é bom lembrar que a grande maioria delas é inofensiva para nós, e que na maioria das vezes nós é que somos um risco para elas. Todas são mortas indiscriminadamente, sejam inofensivas ou perigosas (caso das poucas espécies peçonhentas da nossa fauna). O risco que atribuímos a estes animais está baseado na nossa ignorância sobre seus hábitos. As cobras tem função importante na natureza, como predadores ou presas de outros animais.

A atual devastação ambiental é a maior ameaça para as cobras. Então, caso você se depare com uma, pense duas vezes antes de matá-la.


Outra draga de areia. Passamos por ela na manhã do terceiro dia.
Outra vez tivemos dificuldades em passar pelos cabos que atravessam o rio.
Essa estava em pleno funcionamento, um homem a manobrava
enquanto outros quatro trabalhavam na margem.

As torres de transmissão de energia são indícios de que o lago está próximo.

A última coisa que eu esperava encontrar a partir deste ponto era uma draga de areia... mas ali estava ela, com seus cabos de um lado ao outro, em plena região do lago.



Chegamos ao ancoradouro do Renor exatamente às 16:15hr.

Ao chegarmos no lago, após exaustivas horas de remo, fomos fazer reconhecimento do local por onde passaríamos o equipamento.

Na margem oposta de onde acampamos, existe uma “rochinha”, bem ao lado da barragem do Rochedo, por onde as pessoas descem embarcações. Foi por ali que decidimos que passaríamos a nossa canoa.

Constatamos que seria possível transportar nosso equipamento através da rochinha. Todo o material teria que ser carregado por cerca de 500 metros. Voltamos para nosso acampamento e, após uma farta refeição (uma das melhores depois de todos esses dias), fomos dormir às 21:10hr.



Na manhã do quarto dia, após sair de minha barraca, enquanto
tomava
leite com chocolate, sentado no ancoradouro, essa foi a visão que tive do
amanhecer. Eram 6:25hr do dia 22 de abril.
Nosso acampamento
 no ancoradouro do Renor, momentos antes de nossa partida.


 

   


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