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Enchentes e urbanização

Fonte: Osvaldo Ferreira Valente - Estado de Minas
Em: 27/02/04

As comunidades passaram a ter relações muito simplistas com a água. Só se preocupam quando ele falta nas torneiras e nas represas.

Estamos vivendo um período chuvoso. Os efeitos danosos divulgados na mídia, aparentemente, são provocados pelas chamadas chuvas intensas e até “trombas d’água”. Às vezes, nem tão intensas assim, até normais para a época. As conseqüências é que mudaram. Mas mudaram por quê ? Mudaram porque as comunidades passaram a ter relações muito simplistas com a água. Só se preocupam quando ela falta nas torneiras, nas represas das hidrelétricas ou quando o seu volume aumenta em determinadas ocasiões, provocando inundações e causando perdas humanas e econômicas. Fora isso, todos querem se ver livres da água em seus domínios. Ela passou a ser quase uma ameaça. Nada de barro nos entornos das casas e dos prédios e de calçamentos permeáveis nas ruas. Tudo cimentado e asfaltado, para conforto dos usuários de carros. E assim as águas provenientes das chuvas são logo jogadas em tubulações para não “prejudicar” o ambiente. Mas a natureza tem seus poderes e tais atitudes acabam provocando concentrações perigosas.

Mudaram porque a urbanização desconectou o homem do seu ambiente natural e ele não sabe mais, como os antigos sabiam, que um pequeno córrego vem “daquela cabeceira”, ou seja, os cursos d’água não têm origem em si mesmos e são produtos de uma parte da superfície, chamada bacia hidrográfica. Cada um tem a sua, pro menor que seja. Se a bacia hidrográfica for bem tratada, poderá absorver 20% ou mais das águas que chegam a sua superfície por meio de chuvas, conduzindo-as para lençóis subterrâneos, fantásticos reservatórios naturais, capazes de receber grandes volumes d’água nos períodos chuvosos, liberando-os paulatinamente ao longo do ano e evitando os aumentos bruscos de vazões. Bem abastecidos, eles podem sustentar boas nascentes ou poços furados ou perfurados, mesmo nos períodos de seca. Impermeabilizações e drenagens rápidas das águas são as principais responsáveis pela completa desorganização desses sistemas hidrológicos naturais. Tenta-se, então, resolver as deficiências com a construção de reservatórios artificiais (tanques, açudes, etc.), que também geram problemas, como a retenção exagerada de água na estiagem prolongada, prejudicando o abastecimento das comunidades localizadas nas partes mais baixas das bacias. Fecha-se, assim, o ciclo vicioso da incompetência do homem em lidar com um recurso natural de importância vital e extremamente sensível ao manejo inadequado.

As conseqüências mudaram, também, porque a bacia hidrográfica, apesar de sua importância, continua sendo uma ilustre desconhecida, até para autoridades e profissionais relacionados com recursos hídricos. Falam o seu nome em vão, pois continuam a concentrar suas preocupações nos cursos d’água, resumindo as bacias a pequenas faixas de terra, carimbadas como de preservação permanente, a serem demarcadas ao longo dos leitos dos corpos d’água. São encantados como os tais reflorestamentos ciliares, quando os maiores problemas podem estar em encostas usadas como pastagens, por exemplo e bem longe das áreas ciliares (áreas adjacentes de corpos d’água, que podem conservar qualidade, mas nunca quantidade de água).

É bom lembrar que só se deve investir na qualidade de um produto depois de garantir a sua quantidade para as necessidades de consumo. Resumindo, não se pode garantir quantidade de água de um rio investindo apenas em reflorestamentos ciliares, em estações de tratamento de esgotos e em pregações sobre a necessidade de sua revitalização, sem um efetivo planejamento para segurar as águas de chuva nas cabeceiras, principalmente nos lençóis subterrâneos. Sem isso, as águas de chuva se transformaram em enxurradas, provocando inundações.

Mas como segurar água de chuva nas cabeceiras das bacias, evitando ou diminuindo o efeito das inundações? Pode ser nos lençóis subterrâneos, procurando: 1) ensinar e ajudar os produtores rurais a se tornarem também produtores de água, deixando de considerar as chuvas apenas como sistemas de irrigação de suas culturas; existem muitas técnicas disponíveis para aumentar infiltração de água no solo, requisito básico para abastecimento de lençóis; 2) aplicar tecnologias de pavimentação permeáveis para as áreas urbanas; 3) capacitar técnicos em hidrologia e manejo de bacias hidrográficas, profissionais aptos a analisarem as interações entre os ecossistemas hidrológicos e familiares das bacias e a planejarem a sua adequada convivência para produção de vazões mais estáveis ao longo do ano. Nas áreas urbanas, a parte da chuva que inevitavelmente se transforma em enxurrada, pode ser retida por meio de caixas de coleta em casas, prédios, galpões industriais, para uso posterior em limpeza, irrigação de jardins etc,; coleta de enxurradas ao longo de estradas; piscinões. Se tais soluções são meras utopias, tudo bem, restando-nos aceitar, com resignação, as repetidas notícias anuais sobre danos à vida e ao patrimônio, como se tudo fosse mera fatalidade!



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Por Osvaldo Ferreira Valente - Estado de Minas

As comunidades passaram a ter relações muito simplistas com a água. Só se preocupam quando ele falta nas torneiras e nas represas.

Estamos vivendo um período chuvoso. Os efeitos danosos divulgados na mídia, aparentemente, são provocados pelas chamadas chuvas intensas e até “trombas d’água”. Às vezes, nem tão intensas assim, até normais para a época. As conseqüências é que mudaram. Mas mudaram por quê ? Mudaram porque as comunidades passaram a ter relações muito simplistas com a água. Só se preocupam quando ela falta nas torneiras, nas represas das hidrelétricas ou quando o seu volume aumenta em determinadas ocasiões, provocando inundações e causando perdas humanas e econômicas. Fora isso, todos querem se ver livres da água em seus domínios. Ela passou a ser quase uma ameaça. Nada de barro nos entornos das casas e dos prédios e de calçamentos permeáveis nas ruas. Tudo cimentado e asfaltado, para conforto dos usuários de carros. E assim as águas provenientes das chuvas são logo jogadas em tubulações para não “prejudicar” o ambiente. Mas a natureza tem seus poderes e tais atitudes acabam provocando concentrações perigosas.

Mudaram porque a urbanização desconectou o homem do seu ambiente natural e ele não sabe mais, como os antigos sabiam, que um pequeno córrego vem “daquela cabeceira”, ou seja, os cursos d’água não têm origem em si mesmos e são produtos de uma parte da superfície, chamada bacia hidrográfica. Cada um tem a sua, pro menor que seja. Se a bacia hidrográfica for bem tratada, poderá absorver 20% ou mais das águas que chegam a sua superfície por meio de chuvas, conduzindo-as para lençóis subterrâneos, fantásticos reservatórios naturais, capazes de receber grandes volumes d’água nos períodos chuvosos, liberando-os paulatinamente ao longo do ano e evitando os aumentos bruscos de vazões. Bem abastecidos, eles podem sustentar boas nascentes ou poços furados ou perfurados, mesmo nos períodos de seca. Impermeabilizações e drenagens rápidas das águas são as principais responsáveis pela completa desorganização desses sistemas hidrológicos naturais. Tenta-se, então, resolver as deficiências com a construção de reservatórios artificiais (tanques, açudes, etc.), que também geram problemas, como a retenção exagerada de água na estiagem prolongada, prejudicando o abastecimento das comunidades localizadas nas partes mais baixas das bacias. Fecha-se, assim, o ciclo vicioso da incompetência do homem em lidar com um recurso natural de importância vital e extremamente sensível ao manejo inadequado.

As conseqüências mudaram, também, porque a bacia hidrográfica, apesar de sua importância, continua sendo uma ilustre desconhecida, até para autoridades e profissionais relacionados com recursos hídricos. Falam o seu nome em vão, pois continuam a concentrar suas preocupações nos cursos d’água, resumindo as bacias a pequenas faixas de terra, carimbadas como de preservação permanente, a serem demarcadas ao longo dos leitos dos corpos d’água. São encantados como os tais reflorestamentos ciliares, quando os maiores problemas podem estar em encostas usadas como pastagens, por exemplo e bem longe das áreas ciliares (áreas adjacentes de corpos d’água, que podem conservar qualidade, mas nunca quantidade de água).

É bom lembrar que só se deve investir na qualidade de um produto depois de garantir a sua quantidade para as necessidades de consumo. Resumindo, não se pode garantir quantidade de água de um rio investindo apenas em reflorestamentos ciliares, em estações de tratamento de esgotos e em pregações sobre a necessidade de sua revitalização, sem um efetivo planejamento para segurar as águas de chuva nas cabeceiras, principalmente nos lençóis subterrâneos. Sem isso, as águas de chuva se transformaram em enxurradas, provocando inundações.

Mas como segurar água de chuva nas cabeceiras das bacias, evitando ou diminuindo o efeito das inundações? Pode ser nos lençóis subterrâneos, procurando: 1) ensinar e ajudar os produtores rurais a se tornarem também produtores de água, deixando de considerar as chuvas apenas como sistemas de irrigação de suas culturas; existem muitas técnicas disponíveis para aumentar infiltração de água no solo, requisito básico para abastecimento de lençóis; 2) aplicar tecnologias de pavimentação permeáveis para as áreas urbanas; 3) capacitar técnicos em hidrologia e manejo de bacias hidrográficas, profissionais aptos a analisarem as interações entre os ecossistemas hidrológicos e familiares das bacias e a planejarem a sua adequada convivência para produção de vazões mais estáveis ao longo do ano. Nas áreas urbanas, a parte da chuva que inevitavelmente se transforma em enxurrada, pode ser retida por meio de caixas de coleta em casas, prédios, galpões industriais, para uso posterior em limpeza, irrigação de jardins etc,; coleta de enxurradas ao longo de estradas; piscinões. Se tais soluções são meras utopias, tudo bem, restando-nos aceitar, com resignação, as repetidas notícias anuais sobre danos à vida e ao patrimônio, como se tudo fosse mera fatalidade!

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