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Canalizar Córregos

Fonte: Apolo Heringer Lisboa e Isabel Regina de Souza Pereira *
Em: 21/11/09

Intriga a obcecante demanda pública por canalização de córregos, considerada erroneamente sinônimo de saneamento básico.
Em termos ambientais esta proposta é um contra-senso. Belo Horizonte optou, desde sua fundação, pelo lançamento dos esgotos domésticos e industriais diretamente nas águas das bacias do Arrudas e do Onça, e não raro do lixo, acreditando que os ribeirões continuariam com vida. A especulação imobiliária comandou a construção da cidade,tratando indevidamente o seu solo e seus cursos d’água, invadindo seus espaços. A partir desta realidade, as enchentes e até as chuvas sazonais passaram a ser mal vistas e endemoniadas. Enchentes e chuvas abundantes são fenômenos naturais cíclicos da maior importância ecológica. Ao se invadir os espaços dos cursos d’água eles são expostos às reações da natureza. A proposta de interceptar os esgotos nas duas margens e conduzí-los até uma estação de tratamento antes de lançá-los nos córregos, só agora está sendo admitida.Minas chegou ao ano 2000 com menos de 1% de esgotos tratados.

Nas áreas já ambientalmente degradadas dos córregos só há duas estratégias possíveis para o saneamento: com recomposição ambiental ou com canalização, esta com ou sem avenidas sobre córregos. É constrangedor reconhecer que a ideologia de canalizar córregos, envolvendo o mercado imobiliário e o dinheiro público, além das empreiteiras, tem apoio popular. Será que a ideologia dominante numa sociedade tem que ser sempre a ideologia das classes dominantes? A opção adotada atingirá em torno de 92 córregos na cidade, com impacto na qualidade de vida e na consciência da população de Belo Horizonte. É importante que se conheça e se divulgue o que é feito nas comunidades do Jardim Felicidade e da Vila Biquinha (Região Norte), Alto Vera Cruz (Leste), Vila Ouro Preto (Pampulha) e Madre Gertrudes (Oeste) onde se trabalham projetos de recomposição ambiental e paisagísticos para seus córregos, ao lado das Administrações Regionais, do Projeto Manuelzão (UFMG) e do Movimento de Cidadania pelas Águas. Canalizar córregos e fazer avenidas por sobre eles, além de muita falta de imaginação, é estar de mal com Deus e com a natureza. É como propor encarcerar os meninos de rua e os mendigos, em vez de eliminar as causas de sua existência. É uma primeira reação irracional diante de um problema que aflige a sociedade. A solução é ter políticas que eliminem a transformação dos córregos em esgotos e lixões difusos, implantando projetos paisagísticos nestas áreas, conservando as características naturais dos córregos necessárias à sua autodepuração.

*Apolo Heringer Lisboa,
Professor de Medicina na UFMG,
Coordenador Geral do Projeto Manuelzão
Isabel Regina de Souza Pereira
Membro do Sub-comitê do Ribeirão
da Mata
 



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Canalizar Córregos



Por Apolo Heringer Lisboa e Isabel Regina de Souza Pereira *

Intriga a obcecante demanda pública por canalização de córregos, considerada erroneamente sinônimo de saneamento básico.
Em termos ambientais esta proposta é um contra-senso. Belo Horizonte optou, desde sua fundação, pelo lançamento dos esgotos domésticos e industriais diretamente nas águas das bacias do Arrudas e do Onça, e não raro do lixo, acreditando que os ribeirões continuariam com vida. A especulação imobiliária comandou a construção da cidade,tratando indevidamente o seu solo e seus cursos d’água, invadindo seus espaços. A partir desta realidade, as enchentes e até as chuvas sazonais passaram a ser mal vistas e endemoniadas. Enchentes e chuvas abundantes são fenômenos naturais cíclicos da maior importância ecológica. Ao se invadir os espaços dos cursos d’água eles são expostos às reações da natureza. A proposta de interceptar os esgotos nas duas margens e conduzí-los até uma estação de tratamento antes de lançá-los nos córregos, só agora está sendo admitida.Minas chegou ao ano 2000 com menos de 1% de esgotos tratados.

Nas áreas já ambientalmente degradadas dos córregos só há duas estratégias possíveis para o saneamento: com recomposição ambiental ou com canalização, esta com ou sem avenidas sobre córregos. É constrangedor reconhecer que a ideologia de canalizar córregos, envolvendo o mercado imobiliário e o dinheiro público, além das empreiteiras, tem apoio popular. Será que a ideologia dominante numa sociedade tem que ser sempre a ideologia das classes dominantes? A opção adotada atingirá em torno de 92 córregos na cidade, com impacto na qualidade de vida e na consciência da população de Belo Horizonte. É importante que se conheça e se divulgue o que é feito nas comunidades do Jardim Felicidade e da Vila Biquinha (Região Norte), Alto Vera Cruz (Leste), Vila Ouro Preto (Pampulha) e Madre Gertrudes (Oeste) onde se trabalham projetos de recomposição ambiental e paisagísticos para seus córregos, ao lado das Administrações Regionais, do Projeto Manuelzão (UFMG) e do Movimento de Cidadania pelas Águas. Canalizar córregos e fazer avenidas por sobre eles, além de muita falta de imaginação, é estar de mal com Deus e com a natureza. É como propor encarcerar os meninos de rua e os mendigos, em vez de eliminar as causas de sua existência. É uma primeira reação irracional diante de um problema que aflige a sociedade. A solução é ter políticas que eliminem a transformação dos córregos em esgotos e lixões difusos, implantando projetos paisagísticos nestas áreas, conservando as características naturais dos córregos necessárias à sua autodepuração.

*Apolo Heringer Lisboa,
Professor de Medicina na UFMG,
Coordenador Geral do Projeto Manuelzão
Isabel Regina de Souza Pereira
Membro do Sub-comitê do Ribeirão
da Mata
 

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